Vicissitudes de um império oceânico: o recrutamento das gentes do mar na América portuguesa (séculos XVII e XVIII)
Luiz Geraldo Silva
Graduado em História pela Universidade Federal de Pernambuco, Mestrado em História do Brasil pela mesma Universidade e Doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo. É Professor Adjunto da Universidade Federal do Paraná e tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Colônia
Assim, desde o século XVI, mas sobretudo entre os séculos XVII e XVIII, sabe-se que muitos escravos negros – africanos ou nascidos em Portugal – foram empregados nos navios da carreira da Índia. Como revela Saunders, muitos deles – senão a maioria – eram de propriedade de marujos recrutados pela Marinha portuguesa. Empregando seus escravos nos navios, os marujos acabavam por perceber seu salário e o salário de seus cativos. Desse modo, eles viam aumentar seus rendimentos pecuniários além de serem poupados de trabalhos pesados executados a bordo, os quais acabavam por ficar a cargo dos escravos. Do ponto de vista das autoridades portuguesas, o expediente de empregar escravos acabava sendo encarado como um meio normal e corrente de suprir lacunas na tripulação. Em 1559, o navio Águia, que fazia a carreira da Índia, “só se salvou de naufragar no canal de Moçambique devido aos esforços feito pelos negros que estavam a bordo”. Funcionários da Casa da Índia declararam em 1712 que muitos navios da carreira não teriam alcançado Portugal “se não fosse o trabalho contínuo dos escravos negros que vão neles”. Em 1738 o Vice-Rei da Índia, D. Pedro de Mascarenhas (1732-1740), afirmou que quando não havia escravos provenientes de Moçambique nos galeões estes não podiam navegar. Segundo ele, os escravos negros eram empregados nos navios “como trabalhadores no convés realizando o trabalho duro, como acontece geralmente”.6
Ao mesmo tempo, a navegação marítima portuguesa interna ao Índico e ao Pacífico passou a empregar um número considerável de marujos asiáticos desde o século XVI, e os poucos brancos que restaram nos navios ocupavam as posições superiores ou as funções de soldados ou artilheiros. Calcula-se que o número de marinheiros disponíveis no Estado da Índia em inícios do século XVI nunca tenha sido superior a 400 pessoas – um número desprezível considerando as demandas de todas as frotas que partiam de Lisboa a Goa, e vice-versa. Do mesmo modo, como se verá adiante, apelar-se-á para este recurso na América portuguesa entre os séculos XVII e XVIII: marujos foram aqui recrutados primeiro para suprir demandas da carreira da Índia, depois para suprir a Marinha Real portuguesa na Europa. Finalmente, muitos marinheiros foram incorporados às forças navais para servir na própria América, notadamente nas guerras luso-espanholas levadas a efeito no Sul do Brasil durante a segunda metade do século XVIII. Recrutar marujos entre africanos, asiáticos e, depois, entre habitantes da América portuguesa constituía, pois, prática que concorria para a manutenção de um império talassocrático que, paradoxalmente, não dispunha de um considerável contingente de pessoal marítimo em seu próprio domínio terrestre europeu.7
Antes, porém, de analisar as práticas do recrutamento para a Armada portuguesa levadas a efeito na América, cabe verificar como, à mesma época, outras nações européias procediam no recrutamento de pessoas para completar as guarnições de seus barcos de guerra e de comércio.
..........................................A prática do recrutamento para a carreira da Índia na Cidade da Bahia não era realizada sem contradições em relação à vocação marítima dos recrutados. Na verdade, bem longe de critérios baseados na experiência marítima, as autoridades consideravam o serviço nas tripulações da carreira uma pena para criminosos e pessoas indesejáveis. Em julho de 1672 estacionara no porto de Salvador, para reparos, o navio São Pedro de Rates, o qual partira de Lisboa, sob comando do capitão Jerônimo de Carvalho, provavelmente em março ou abril daquele ano. Meses depois, a 23 de novembro de 1672, o então governador-geral do Estado do Brasil, Affonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça (1671-1673), enviou carta aos capitães-mores do Recôncavo informando que havia necessidade de pessoal da terra para completar a guarnição da “nau da Índia”. Deviam os destinatários “receber esta, que guardará com todo segredo”, e lançar “os olhos nos vadios, e criminosos que nesse seu distrito houver, e em 29 deste [mês] os prenda, e os remeta a bom recado, com a memória dos nomes, e causas, porque cada um deles merece ser preso”. O governador-geral era bastante claro nesta e em outra missiva do mesmo dia, destinada ao sargento-mor da Vila do Camamu, Francisco de Oliveira Tourinho, ao declarar que, com tal procedimento, mataria dois coelhos com uma só cajadada: “minha tenção não é só acudir a esta necessidade da nau da Índia, mas livrar essa Vila de gente vagabunda e perdida”. A idéia do governador-geral era, pois, a de recrutar pessoas vadias e desocupadas para seguir viagem à Índia e “ver o Recôncavo livre de semelhante gente”. 16
http://www.revistanavigator.com.br/navig5/art/N5_art3.doc.
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lunes, 15 de febrero de 2010
domingo, 6 de septiembre de 2009
Deserciones de soldados y marineros a finales del XVII en Brasil
libro:Castilla y Portugal en Asia, 1580-1680 Escrito por Rafael Valladares
http://books.google.es/books?id=BB9BmCJ0EQsC&pg=PA65&dq=ESCLAVOS+MALAYOS+BRASIL&lr=&as_brr=3
No final do século XVII, porém, um novo fator veio se adicionar aos problemas alfandegários. Bandeirantes paulistas haviam descoberto muito ouro em Minas Gerais. Uma corrida para os garimpos afetou o Brasil e Portugal e até mesmo outros países europeus. Milhares de aventureiros atravessaram o Atlântico e se internaram nos sertões em busca do metal precioso. Soldados e marinheiros dos navios desertavam e fugiam para os garimpos, sem que fosse possível impedí-los. O movimento comercial mais que duplicou nos portos de Salvador e do Rio de Janeiro.
http://www.receita.fazenda.gov.br/Memoria/pessoal/alfandega_salvador/default.asp
Carreira da India
Não por acaso, portanto, o Governador-Geral Affonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça escrevia ao capitão-mor da Cidade da Bahia, em 22 de novembro de 1672, lembrando-o do trabalho em que consistia conservar “a gente do mar” que trouxera a nau da Índia São Pedro de Rates então surta no porto de Salvador. Reiterando que formar tripulação para a carreira representava um ônus enorme aos indivíduos, Rio de Mendonça afirma que grande fora o “trabalho com que se conservou a gente do mar, que trouxe essa nau, e se ajuntou e recolheu a ela a que faltava para ficar com toda a que lhe era necessária para sua navegação”. Cuidava, pois, para que os marujos “não pudessem fugir” e, em função desse desiderato, “enviei a vossa mercê um ajudante com soldados bastantes para as sentinelas de sua guarda: e encomendei a vossa mercê que não viesse, nem deixasse vir a terra, marinheiro algum, nem pessoa alguma do mar”. A nau da Índia era, assim, além de uma cidade, uma prisão flutuante. Mesmo assim, porém, vinham “à terra muitos marinheiros”, e muitos não se recolhiam ao galeão, “antes é já fugido algum”. Cabia ao capitão-mor da Cidade da Bahia procurar os marujos fugitivos e reconduzi-los ao navio com urgência, pois este estava, por essa época, prestes a partir. A idéia do navio-prisão era, então, reforçada em nome do serviço de Sua Alteza e do descanso do governador-geral:
Vossa mercê ponha neste particular todo o desvelo, e se for necessário outro cabo e mais soldados o mandarei logo para se dobrarem as sentinelas, mandando vossa mercê fechar as portinholas, mais ocasionadas à sua fugida; e os batéis em sendo noite de maneira que se não possam valer deles; porque não pode haver mais grave prejuízo ao serviço de Sua Alteza que faltar a gente do mar, quando a Nau está para partir; e todo o que neste particular houver, correrá por conta de vossa mercê, a quem faço esta lembrança por ser tão importante todo o cuidado que vossa mercê deve por em evitar por todos os meios, que de nenhum modo possa fugir mais dessa nau pessoa alguma tocante à sua mareação. Mas vossa mercê é tão prevenido e a sua assistência é tanta nessa nau que creio que poderei estar descansado. 20
Tal como os escravos marinheiros do Brasil imperial, empregados nos navios mercantes e de cabotagem no século XIX, os marujos da carreira de fins do século XVII – fossem recrutados no Reino, fossem na América – pareciam fugir de bordo a nado, escapando pelas “portinholas”, ou servindo-se dos batéis existentes nos galeões da Armada. Fosse como fosse, sua sina era dura e sem remissão. Apenas a metade dos embarcados veria, do outro lado do mundo, a Goa dourada. Por sua vez, no século XVIII, observa-se que a demanda por marujos da América aumenta significativamente.
http://74.125.77.132/search?q=cache:z9sHWR-4TeEJ:www.revistanavigator.net/navig5/art/N5_art3.doc+marinheiros+malaios+brasil&hl=es&ct=clnk&cd=35
Vossa mercê ponha neste particular todo o desvelo, e se for necessário outro cabo e mais soldados o mandarei logo para se dobrarem as sentinelas, mandando vossa mercê fechar as portinholas, mais ocasionadas à sua fugida; e os batéis em sendo noite de maneira que se não possam valer deles; porque não pode haver mais grave prejuízo ao serviço de Sua Alteza que faltar a gente do mar, quando a Nau está para partir; e todo o que neste particular houver, correrá por conta de vossa mercê, a quem faço esta lembrança por ser tão importante todo o cuidado que vossa mercê deve por em evitar por todos os meios, que de nenhum modo possa fugir mais dessa nau pessoa alguma tocante à sua mareação. Mas vossa mercê é tão prevenido e a sua assistência é tanta nessa nau que creio que poderei estar descansado. 20
Tal como os escravos marinheiros do Brasil imperial, empregados nos navios mercantes e de cabotagem no século XIX, os marujos da carreira de fins do século XVII – fossem recrutados no Reino, fossem na América – pareciam fugir de bordo a nado, escapando pelas “portinholas”, ou servindo-se dos batéis existentes nos galeões da Armada. Fosse como fosse, sua sina era dura e sem remissão. Apenas a metade dos embarcados veria, do outro lado do mundo, a Goa dourada. Por sua vez, no século XVIII, observa-se que a demanda por marujos da América aumenta significativamente.
http://74.125.77.132/search?q=cache:z9sHWR-4TeEJ:www.revistanavigator.net/navig5/art/N5_art3.doc+marinheiros+malaios+brasil&hl=es&ct=clnk&cd=35
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